Maria Parteira: A beleza e o comprometimento de uma “mãe de pegação”

Imagem: Darlan A. Lustosa || Portal do Cerrado



Filha de João Cheiro e D. Alcina, ela nasceu Maria Ferreira de Souza em 1923 na localidade conhecida pelo nome de “Murrins”, hoje Fazenda Primavera em Formosa do Rio Preto, extremo Oeste da Bahia. Vinte anos depois, já era conhecida como Maria Parteira na  pequena e isolada vila . Para alguns ela passou a ser Mãe Maria. Teve 15 filhos dos quais seis estão vivos. Foi da dificuldade de “segurar filhos”, que a devota de Nossa Senhora Santana  fez uma promessa. O primeiro filho que “sustentasse na vida“, seria homenageado com o nome da Santa. Nasceu João Santana.  Ela tem 27 Netos e 31  bisnetos e 3 tataranetos.

Se “todo homem precisa de uma mãe” foi assim a partir da década de 1940, que muitos filhos e filhas precisaram de Maria para virem ao mundo. Nascer pelas mãos e sabedoria de uma parteira era cultural, um aspecto da realidade social da época. 

Era tempo de dificuldades. Não havia acesso a médico.  O rio Preto era o único caminho pra chegar a Santa Rita de Cássia. Descia-se ao sabor da correnteza mansa das águas. Maria Parteira era a tábua de salvação para muitas mulheres, que colocavam em suas mãos a vida dos futuros filhos que estavam por nascer. Por elas vieram ao mundo boa parte das pessoas da pequena vila da época.

Ela conta  que foi numa visita com sua avó à casa de uma amiga, que estava grávida,  que começou a dádiva de Deus, como ela mesmo diz. Naquele dia, a amiga com dores do parto,  pediu ao marido para encontrar uma parteira. Não deu tempo da parteira chegar: D. Maria, como também é conhecida, hoje aos 95 anos, teve que ajudar a avó fazer o aquele parto. “Lembro não meu filho. Devia ter uns 17 pra 18 anos” diz ela puxando pela memória.

Não parou mais: Ela não tem o número exato dos partos que fez. Mas acredita que foram  mais de 3 mil.  “Meu Deus! Eu não conto nada. Era chegando de uma casa e indo pra outra”, diz ela. Se orgulha em dizer que jamais deixou uma mulher parida morrer em suas mãos. A experiência dos anos, com base  na data da menstruação, saberia com exatidão o dia do nascimento do bebê.

Para Mãe Maria, que tinha no ato de “pegar menino” um desígnio de Deus, de fato era de comprometimento e entrega. A qualquer hora do dia ou da noite, Maria Parteira estava a disposição para o ofício. Não lembra quantas vezes saiu na madrugada para fazer  partos. Ela deixava sua casa, sua família e dedicava sua vida durante sete dias a parturiente.  O primeiro banho na criança era preparado por ela. Durante uma semana a mulher parida não poderia fazer esforço para não “quebrar o resguardo” e ai de novo Maria Parteira entrava em ação. Preparava o banho com folhas de barbatimão, um cicatrizante natural.  O sumo da folha do mastruz e do algodão, outros cicatrizantes também preparado com ela, não sem antes uma oração.  As refeições a base de galinha caipira, um pirão mole, tudo passava pelas mãos da parteira. Pentear os cabelos era considerado um esforço para uma mulher parida. A criança não poderia sair do quarto para não pegar o mal de sete dias (hemorragias por falta de vitamina K, que ajuda na coagulação do sangue. Ela é produzida pela flora intestinal, imatura no recém-nascido). Todo cuidado era pouco em uma época em que o conhecimento era de pura experiência. Quando havia uma dificuldade no parto, Mãe Maria, corria para desamarrar todos os nós que poderiam haver em alguma roupa da criança. Todos os laços eram desfeitos. Era a época da pureza, como a criança que estava vindo para fazer parte desse mundo.

Até pouco tempo, havia um orgulho dos “filho de Maria Parteira” em dizer quem era a mãe de pegação. 

Mas foi no início na década de 1990 que as coisas começaram a mudar. A prefeitura local proibiu então o parto que não fosse feito no hospital. Maria Parteira que tem todas as leituras da vida, não sabia decifrar o alfabeto e foi deixada de lado. Excluída do processo, ela guarda duas mágoas. A de não ter sido convidada para participar dos partos então passados a ser realizados no hospital municipal e hoje a falta de visitas de seus  “filhos de pegação”.

Mas guarda um respeito enorme pelo médico Dr. Ubiratan que viveu em Formosa por duas décadas. Ele foi o único a valorizar o trabalho, o conhecimento e a sabedoria da velha e boa mãe de pegação.


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