
Os focos de calor no oeste da Bahia voltaram a acelerar na reta final de setembro, depois de um começo de mês que, pelo menos até o dia 18, vinha com queda expressiva sobre 2025. Levantamento do Portal do Cerrado nos arquivos do Programa Queimadas do Inpe mostra que, entre 1º e 22 de setembro de 2026, o satélite AQUA_M-T registrou 504 focos de calor nos 24 municípios do Extremo Oeste Baiano — ante 642 no mesmo intervalo do ano passado. A queda ainda existe, mas encolheu: de quase 32%, medida até o dia 18, para 21,5%, medida até o dia 22.
O motivo do encolhimento tem data e número exatos. Em 22 de setembro, a região somou 65 focos em um único dia, o terceiro pior valor do mês, atrás apenas de 10 de setembro (85 focos) e 18 de setembro (82). Antes disso, três dias mais tranquilos — 19, 20 e 21 de setembro — haviam somado, juntos, apenas 45 registros. O salto devolveu força ao fogo bem no momento em que a primavera começava a valer no calendário da região.
O salto de 22 de setembro
Todos os 65 registros de 22 de setembro vieram com risco de fogo no valor máximo da escala do Inpe, 1,0 — ou seja, nenhum deles caiu numa área com qualquer folga de umidade no solo ou na vegetação. Um dos pontos de calor detectados em Luís Eduardo Magalhães já estava a 105 dias seguidos sem chuva, a maior sequência entre todas as ocorrências do dia. Formosa do Rio Preto, a cidade historicamente mais castigada da região, também apareceu na lista do dia 22, mas o maior volume daquela data se concentrou justamente em municípios que vinham discretos até então.
Focos de calor no oeste da Bahia: quem mais queimou entre 1º e 22 de setembro
A tabela a seguir traz o comparativo completo dos municípios com mais focos de calor no oeste da Bahia neste recorte, sempre pelo mesmo satélite, para que 2025 e 2026 sejam comparáveis:
| Município | 2025 | 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Total dos 24 municípios | 642 | 504 | −21,5% |
| Formosa do Rio Preto | 190 | 128 | −32,6% |
| Mansidão | 0 | 65 | novo |
| Riachão das Neves | 17 | 58 | +241% |
| São Desidério | 103 | 56 | −45,6% |
| Barreiras | 29 | 35 | +20,7% |
| Cotegipe | 8 | 31 | +287,5% |
| Cocos | 142 | 27 | −81,0% |
| Jaborandi | 20 | 18 | −10,0% |
| Serra Dourada | 0 | 18 | novo |
| Luís Eduardo Magalhães | 23 | 12 | −47,8% |
| Santa Rita de Cássia | 32 | 3 | −90,6% |
Formosa do Rio Preto segue como o município com mais registros em números absolutos, mas também segue em queda: 128 focos contra 190 de 2025, uma retração de quase um terço. É a mesma cidade que, no incêndio na região da Malhadinha, já havia mostrado como o fogo se espalha rápido nas áreas de cerrado nativo dos Gerais.
Mansidão sai do zero e Riachão das Neves triplica
O detalhe mais chamativo da tabela é Mansidão, vizinha de Formosa do Rio Preto: nenhum foco detectado por este satélite no mesmo período de 2025 e 65 registros neste setembro, o maior salto absoluto de toda a mesorregião. Riachão das Neves e Cotegipe seguem o mesmo caminho, embora em volume menor. Do outro lado da tabela, Cocos e Santa Rita de Cássia são os municípios que mais aliviaram a pressão do fogo neste ano, com quedas acima de 80%. Veja o resumo dos maiores movimentos:
- Mansidão: nenhum foco em 2025, 65 em 2026 — o maior salto absoluto da região.
- Riachão das Neves: de 17 para 58 focos, alta de 241%.
- Cotegipe: de 8 para 31 focos, alta de 287,5%.
- Cocos: de 142 para 27 focos, queda de 81%, a maior retração da mesorregião.
- Santa Rita de Cássia: de 32 para 3 focos, queda de 90,6%.
Aviso de baixa umidade segue ativo nesta quarta
O Inmet mantém, neste momento, aviso de baixa umidade em grau de perigo potencial para o Extremo Oeste Baiano, válido das 9h às 23h59 desta quarta-feira (23), com umidade relativa entre 30% e 20% — mais brando que os avisos de “perigo” emitidos quase todos os dias entre 15 e 22 de setembro, quando a faixa caiu para 12% a 20%. Mesmo assim, o salto do dia 22 mostra que os focos de calor no oeste da Bahia não seguem o mesmo ritmo da umidade: um aviso mais ameno não significa fogo em queda.
A chegada da primavera na região, pela mesma normal climatológica do Inmet, não traz alívio imediato: a chuva de peso só volta com força em novembro. Até lá, o quadro de temperaturas elevadas no oeste baiano e de solo seco deve seguir alimentando episódios como o de 22 de setembro.
Como o Portal do Cerrado apurou os focos de calor no oeste da Bahia
O levantamento usou os arquivos diários e mensal do Situação Atual do Programa Queimadas, do Inpe, filtrados por um único satélite — o AQUA_M-T — para que os dois anos fossem comparados pelo mesmo sensor, já que o arquivo bruto mistura mais de dez satélites com coberturas diferentes. Os registros foram cruzados pelo código do IBGE com os 24 municípios do Extremo Oeste Baiano e somados dia a dia, de 1º a 22 de setembro em 2025 e em 2026. A comparação atualiza o levantamento publicado em 19 de setembro, que havia fechado a contagem no dia 18.
Um alerta de método: a detecção por satélite depende de nuvem e hora de passagem, então os números servem para comparar um ano com o outro — não como contagem exaustiva de cada foco real no solo. Os avisos meteorológicos citados foram lidos direto do Inmet, na manhã desta quarta-feira.
No fim das contas, os focos de calor no oeste da Bahia ainda somam bem menos do que em 2025 — mas a folga que parecia confortável há poucos dias já não é tão grande assim. Se o ritmo de setembro se mantiver, o mês deve fechar mais perto de uma queda de uma dúzia de pontos percentuais do que dos 32% anunciados na semana passada, e municípios como Mansidão e Riachão das Neves passam a pesar tanto quanto os nomes que sempre lideraram essa conta.
